Feeds:
Posts
Comentários

Archive for setembro \13\UTC 2013

Quem vai te ajudar quando a neném nascer?

Passei a responder essa pergunta desde que dei a notícia da gravidez, mas tenho sido bombardeada por ela mais e mais conforme vai chegando perto da data prevista para o nascimento agora no final do mês.  Sinto todo o carinho de quem está longe.  Sinto a preocupação de quem gostaria de poder ajudar.  Sou muito grata por ter tanta gente querida me desejando tanta coisa boa.  E ao mesmo tempo, ando refletindo bastante nas questões culturais que envolvem tal questionamento, já que apenas brasileiros parecem ter esse tipo de dúvidas direcionadas a mim.

Nós somos frutos do meio, não tem jeito, e por isso a curiosidade genuína de quem (brasileiro) me visita pela primeira vez e me pergunta quem limpa a minha casa.  Como não temos e nem nunca tivemos empregada, a resposta sempre causa um arregalamento de olhos quase que instantâneo.  Recebo elogios, comentários de que sou uma super mulher por conseguir fazer isso ou aquilo e acho que se houvesse uma categoria olímpica me dariam uma medalha.  No meu primeiro ano morando aqui, essa reação sempre me confundia porque no dia a dia em que eu vivia (e vivo) todo mundo simplesmente fazia (e faz) o mesmo que eu.  É asssim.  É natural.  É esperado.  Faz parte.   

Situações como essa acima e muitas outras me fizeram mais consciente para as diferenças culturais.  E com a maternidade batendo à minha porta, certos aspectos culturais que não faziam parte da minha vida antes agora são algo comum.  As diferenças são gritantes e encaro cada uma delas como elas exatamente como são: diferentes! A inexistência de babás nos moldes brasileiros é algo que muita gente não consegue imaginar.  Mais difícil de imaginar ainda é não ter empregada.  “Como assim você faz tudo?”, é uma constante.  E acho que a minha resposta também é difícil de ser compreendida por muita gente.  “E como você vai fazer sem empregada e nem babá?”“Você vai estar de cama nos primeiros dias, como vai ser?”, “Nossa, eu tinha uma babá para o dia, uma enfermeira dormindo a noite, uma empregada para me ajudar com as coisas da casa e ainda assim foi tão difícil.  Como você vai fazer?”  Tento contextualizar as perguntas, já que elas são baseadas na realidade brasileira e não tem muita aplicabilidade na realidade americana.  Mas às vezes acho que as minhas respostas trazem mais confusão do que esclarecimento.  Geralmente nessa hora eu recebo olhares confusos ou frases meio desconexas.  E entendo a parte cultural da coisa porque cresci com babá, empregada num contexto onde homens da família não tinham obrigações domésticas.  Ajudavam aqui e ali, mas não lembro de ser algo subentendido como parte normal da vida diária.  Mas diferentemente do que eu estava acostumada, a cultura do meu Marido ensinou que ele é tão responsável pelos serviços da casa quanto eu.  E esse senso de responsabilidade se extende aos cuidados com os filhos sem o merecimento de um troféu como se ele estivesse fazendo algo extraordinário.  Ele não vai ser uma ajuda, ele é parte fundamental na criação e tem total consciência disso.  Consigo entender como isso não flui naturalmente no contexto cultural brasileiro, apesar de achar ruim que essa idéia continue sendo passada adiante. 

E sabe, abraço as diferenças culturais sem o menor problema porque acho que elas me fazem pensar bastante e me ajudam a me conhecer melhor.  Mas se tem uma exceção a regra que me incomoda é essa automática exclusão do Marido na equação.  As perguntas não o incluem, não o consideram, não há a menor menção dele nem da função de pai que ele está prestes a exercer.  E curiosamente essas mesmas mulheres que ignoram o meu Marido ao me questionarem são as que lá na frente desabafam chateadas com a falta de ‘ajuda’ do seus próprios maridos em relação aos seus filhos.  Ué, se não existe uma inclusão no processo desde o início como se esperar que ele seja participativo depois?  Os sinais enviados são confusos, não acham?  

E sigo causando um certo estranhamento ao afirmar que meu Marido vai tirar licença paternidade e está empolgadíssimo para ficar 100% dedicado a filha.  Que não sou sortuda por ele ser assim.  Que não sabemos o dia exato que ela vai nascer porque cesária eletiva não é algo comum aqui como no Brasil.  Que fiz aulas de parto e de amamentação.  Que não busquei me informar lendo What to Expect.  Que comentar que o Marido faz questão de ter o moisés do lado dele da cama é orgulho e não reclamação.  Que para melhor encaixar datas, aproveitar feriados e conciliar o trabalho, meus pais provavelmente chegarão aqui após o nascimento dela onde poderão curti-la mais.  Que minha sogra virá mais para a frente ainda na sua própria conveniência.  Que euzinha não faço tudo porque o tudo é dividido com o Marido.  Que provavelmente ele vai trocar as primeiras fraldas e dar o primeiro banho.  Que eu não sinto a menor preocupação se ele vai fazer errado porque eu sei o tanto quanto ele: nada e que vamos aprender juntos o que funciona para a nossa filha.  Que a chegada dela vai bagunçar a rotina até uma nova ser estabelecida.  Que não há o menor desespero para perder o peso da gravidez porque o tamanho da minha cintura não é o mais importante.  E a lista poderia continuar se alongando, mas achei melhor parar por aqui.

Together_Ex corde

E um viva para as diferenças culturais que não me deixam parar de pensar! :)

Ex corde.

Anúncios

Read Full Post »