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Archive for abril \17\UTC 2018

Outro dia, a minha filha de quatro anos e meio me pediu para ler uma revistinha da Turma da Mônica com ela. Temos algumas revistinhas em casa em português que foram carinhosamente trazidas do Brasil pelos avós. E como eu cresci lendo a Turma da Mônica, achei um barato que ela demonstrou interesse. Embarcamos então na leitura. Até que então:

“- Mamãe, a Mônica tá com raiva? E por que o Cebolinha está rindo dela?”

“- A Mônica bateu nele, mamãe? Por quê?”

“- E porque ele implicou com ela?”

Estou no meio de um processo árduo para ensiná-la a processar a suas frustrações de uma maneira saudável, sem bater em ninguém, sem jogar ou quebrar nada. Repito várias vezes ao dia o que é certo e o que é errado. Escolho as palavras. Modero o tom da voz. Dou nome aos sentimentos (raiva, frustração, irritação, etc) para tentar ajudá-la a processá-los melhor. E ao ler a historinha, ela ficou confusa ao identificar os comportamentos claramente errados. ‘É isso mesmo, mamãe?’, ela me perguntava como se quisesse confirmar as constatações. E eu tive que dizer que sim, que ela estava vendo o Cebolinha implicar com a coleguinha pelo simples prazer de implicar; que ela estava vendo a Mônica ter crises de raiva e quebrar tudo pela frente incluindo a cara do coleguinha; e que ela estava vendo um colega rir da dor do outro colega. A experiência de ler a Turma da Mônica com a minha filha não foi legal.

Do ponto de vista da maternidade consciente e propositada que tento exercer com os meus filhos (para quem me segue ha algum tempo, tive um menino que está com 2 anos e meio), a Turma da Mônica não acrescenta. Pelo exposto acima, é claro que as historinhas do Maurício de Souza confundem ao desdizer o que eu repito incansavelmente todos os dias. Fiquei feliz ao constatar que a minha menina já sabe que bater no amigo não é certo. E que não é legal rir na cara do outro enquanto o outro claramente sofre. Mas não me sinto confortável em deixar que a Turma da Mônica conviva tão de perto assim dos meus pequenos. Talvez mais lá para frente – com eles maiores e valores mais consolidados –  eu tente novamente para trazer um pouco de brasileirice para os meus americaninhos. Mas por agora, preciso insistir naquilo que é certo ponto final sem nenhuma abertura para ideias que possam mesmo que em pensamento contribuir para algo que, ao meu ver, é negativo.

“Mãe, o que é dentuça?”

Nem vou entrar no assunto do quanto não quero que ela entenda que pode usar características físicas para ofender os outros. E toda vez que ela me pede para ler a Turma da Mônica, eu sigo inventando uma historia sem pé nem cabeça e me lembro que tenho que colocar os gibis numa caixa lá no fundo da garagem.

Ex corde.

 

 

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