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Archive for the ‘Choque Cultural’ Category

Quem vai te ajudar quando a neném nascer?

Passei a responder essa pergunta desde que dei a notícia da gravidez, mas tenho sido bombardeada por ela mais e mais conforme vai chegando perto da data prevista para o nascimento agora no final do mês.  Sinto todo o carinho de quem está longe.  Sinto a preocupação de quem gostaria de poder ajudar.  Sou muito grata por ter tanta gente querida me desejando tanta coisa boa.  E ao mesmo tempo, ando refletindo bastante nas questões culturais que envolvem tal questionamento, já que apenas brasileiros parecem ter esse tipo de dúvidas direcionadas a mim.

Nós somos frutos do meio, não tem jeito, e por isso a curiosidade genuína de quem (brasileiro) me visita pela primeira vez e me pergunta quem limpa a minha casa.  Como não temos e nem nunca tivemos empregada, a resposta sempre causa um arregalamento de olhos quase que instantâneo.  Recebo elogios, comentários de que sou uma super mulher por conseguir fazer isso ou aquilo e acho que se houvesse uma categoria olímpica me dariam uma medalha.  No meu primeiro ano morando aqui, essa reação sempre me confundia porque no dia a dia em que eu vivia (e vivo) todo mundo simplesmente fazia (e faz) o mesmo que eu.  É asssim.  É natural.  É esperado.  Faz parte.   

Situações como essa acima e muitas outras me fizeram mais consciente para as diferenças culturais.  E com a maternidade batendo à minha porta, certos aspectos culturais que não faziam parte da minha vida antes agora são algo comum.  As diferenças são gritantes e encaro cada uma delas como elas exatamente como são: diferentes! A inexistência de babás nos moldes brasileiros é algo que muita gente não consegue imaginar.  Mais difícil de imaginar ainda é não ter empregada.  “Como assim você faz tudo?”, é uma constante.  E acho que a minha resposta também é difícil de ser compreendida por muita gente.  “E como você vai fazer sem empregada e nem babá?”“Você vai estar de cama nos primeiros dias, como vai ser?”, “Nossa, eu tinha uma babá para o dia, uma enfermeira dormindo a noite, uma empregada para me ajudar com as coisas da casa e ainda assim foi tão difícil.  Como você vai fazer?”  Tento contextualizar as perguntas, já que elas são baseadas na realidade brasileira e não tem muita aplicabilidade na realidade americana.  Mas às vezes acho que as minhas respostas trazem mais confusão do que esclarecimento.  Geralmente nessa hora eu recebo olhares confusos ou frases meio desconexas.  E entendo a parte cultural da coisa porque cresci com babá, empregada num contexto onde homens da família não tinham obrigações domésticas.  Ajudavam aqui e ali, mas não lembro de ser algo subentendido como parte normal da vida diária.  Mas diferentemente do que eu estava acostumada, a cultura do meu Marido ensinou que ele é tão responsável pelos serviços da casa quanto eu.  E esse senso de responsabilidade se extende aos cuidados com os filhos sem o merecimento de um troféu como se ele estivesse fazendo algo extraordinário.  Ele não vai ser uma ajuda, ele é parte fundamental na criação e tem total consciência disso.  Consigo entender como isso não flui naturalmente no contexto cultural brasileiro, apesar de achar ruim que essa idéia continue sendo passada adiante. 

E sabe, abraço as diferenças culturais sem o menor problema porque acho que elas me fazem pensar bastante e me ajudam a me conhecer melhor.  Mas se tem uma exceção a regra que me incomoda é essa automática exclusão do Marido na equação.  As perguntas não o incluem, não o consideram, não há a menor menção dele nem da função de pai que ele está prestes a exercer.  E curiosamente essas mesmas mulheres que ignoram o meu Marido ao me questionarem são as que lá na frente desabafam chateadas com a falta de ‘ajuda’ do seus próprios maridos em relação aos seus filhos.  Ué, se não existe uma inclusão no processo desde o início como se esperar que ele seja participativo depois?  Os sinais enviados são confusos, não acham?  

E sigo causando um certo estranhamento ao afirmar que meu Marido vai tirar licença paternidade e está empolgadíssimo para ficar 100% dedicado a filha.  Que não sou sortuda por ele ser assim.  Que não sabemos o dia exato que ela vai nascer porque cesária eletiva não é algo comum aqui como no Brasil.  Que fiz aulas de parto e de amamentação.  Que não busquei me informar lendo What to Expect.  Que comentar que o Marido faz questão de ter o moisés do lado dele da cama é orgulho e não reclamação.  Que para melhor encaixar datas, aproveitar feriados e conciliar o trabalho, meus pais provavelmente chegarão aqui após o nascimento dela onde poderão curti-la mais.  Que minha sogra virá mais para a frente ainda na sua própria conveniência.  Que euzinha não faço tudo porque o tudo é dividido com o Marido.  Que provavelmente ele vai trocar as primeiras fraldas e dar o primeiro banho.  Que eu não sinto a menor preocupação se ele vai fazer errado porque eu sei o tanto quanto ele: nada e que vamos aprender juntos o que funciona para a nossa filha.  Que a chegada dela vai bagunçar a rotina até uma nova ser estabelecida.  Que não há o menor desespero para perder o peso da gravidez porque o tamanho da minha cintura não é o mais importante.  E a lista poderia continuar se alongando, mas achei melhor parar por aqui.

Together_Ex corde

E um viva para as diferenças culturais que não me deixam parar de pensar! :)

Ex corde.

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A eleição presidencial americana acontece hoje, dia 6 de novembro, mas nós já votamos na semana passada.  Isso mesmo, já votamos!  Eu estava pensando exatamente nas diferenças gritantes entre o sistema eleitoral americano e o sistema brasileiro quando tive a idéia de escrever sobre isso.  Quer saber como é?  É só continuar lendo.

I voted sticker_Photo by Carol_Ex corde

Pra começo de conversa o voto não é obrigatório.  Vota quem quer, quem tá a fim e ponto final.  Existe toda uma conversa do exercício de cidadania para incentivar a ida às urnas e aqueles que votam tem bastante orgulho do ato.  Existe até a distribuição de adesivos dizendo “Eu votei”! (Obrigada pela foto, Carol!).

Early Vote_Ex corde

Na semana que antecede o dia da eleição acontece o que eles chamam de Early Voting, que é basicamente uma votação antecipada.  Eu acompanhei o Marido até uma biblioteca pública para ver como isso funciona enquanto ele votava antecipadamente.  Voto antecipado, Brasil!  É tão civilizado que chega a ser bizarro!

Election_Ex corde

A votação antecipada tem basicamente dois propósitos: diminuir a quantidade de gente no dia da eleição e proporcionar maior comodidade para os eleitores como uma maneira de incentivar mais gente a votar.  Não se esqueça que o voto não é obrigatório.

Early Election_Ex corde

Achei todo o cenário muito parecido com um dia de eleição no Brasil, só que mais arrumadinho, mais organizado, mais limpo e com pessoas menos barulhentas respeitando as regras.  As placas de propaganda política só podiam ir até uma distância X marcada com um pedaço de madeira e um papel avisando (foto acima).  E a brasileira aqui ainda faz cara de bocó ao perceber que não havia nenhuma propaganda além do ponto determinado.  As pessoas respeitam!  Por falar em pessoas, tinha um número razoável de gente votando antecipadamente no sábado passado.  Voto antecipado, minha gente!

Early Voting Line_Ex corde

Achei tudo bem explicadinho e não muito burocratizado.  Marido não sabia onde estava o título de eleitor e votou usando apenas a carteira de identidade.  E ao contrário do que eu pensava, o voto é eletrônico.

Elections_Ex corde

Tive a chance de ver um exemplo da cédula de votação do condado em que moro aqui no Texas.  Além do presidente incluía senadores, juízes, xerife, e mais alguns outros cargos locais que eu nem sabia que eram eleitos juntos. 

Elections Ballot_Ex corde

As regras para a votação antecipada variam de estado para estado podendo ser feita pessoalmente ou até pelo correio.  Isso mesmo que você leu: antecipadamente pelo correio.  Como eu não transferi o meu título de eleitor para o Texas, eu ainda voto pela Virginia no sistema que eles chamam de Absentee Voting.

Absentee Voter Ballot_Ex corde

E como não estou lá, voto pelo correio daqui.  Recebi a cédula pelo correio, segui as instruções para votar DE LÁPIS (!), coloquei a cédula dentro de um envelope, assinei juntamente com uma testemunha, coloquei dentro de um outro envelope selado já preenchido por eles com os meus dados e joguei na caixa do correio. 

Ballot _Ex corde

E o festival de bizarrices não acaba por aqui.  No Brasil, você vai lá na urna no dia da eleição e vota no seu candidato.  Na final do dia, o candidato mais votado ganha porque o voto é contado diretamente.  Você tem certeza de que o seu voto contou para o candidato que você escolheu.  Contou, do verbo contar 1 + 1 = 2.  Ele/Ela pode até não ganhar, mas o seu voto foi contabilizado.  Você sabia que na eleição presidencial americana o voto não é direto?  Eu não sabia e só descobri isso nas eleições de 2008.  Apesar da eleição presidencial ser no âmbito federal, vamos raciocinar daqui pra frente em nível estadual porque é assim que o negócio funciona por aqui.  Cada estado dos EUA tem um Electoral College, que eu vou traduzir livremente de Colégio Eleitoral.  O Colégio Eleitoral de cada estado é formado por Electors, que eu vou chamar de Eleitores.  (Se alguém souber as denominações corretas em português, adiciona aí nos comentários please!).  Então cada estado tem um Colégio Eleitoral formado de Eleitores, certo?  Só que os Eleitores não são todos os cidadãos comuns que vão às urnas votar.  Os Eleitores dos Colégios Eleitorais são (1) pessoas afiliadas a um partido político que são nomeadas como recompensa por muitos anos de serviço no partido daquele estado ou são (2) eleitas pelo voto dentro das convenções do partido daquele estado.  Mais uma vez essas regrinhas variam de estado para estado, mas geralmente os Eleitores são pessoas politicamente ativas dentro dos seus partidos políticos ou conectados de alguma maneira com a arena política (ativistas políticos, líderes de partidos, políticos eleitos, etc).  E a quantidade de Eleitores de um Colégio Eleitoral é proporcional (1:1) ao número de Senadores e Deputados Federais de cada estado que por sua vez é proporcional à população de cada estado.  Ou seja, quanto mais populoso o estado, maior número de Eleitores o Colégio Eleitoral terá.  O mapa abaixo mostra o número de Eleitores de cada Colégio Eleitoral de cada estado.

Fonte: http://www.nationalpopularvote.com/pages/electoralcollege.php

Quando as eleições chegam, cada partido político dentro de cada estado americano já vai ter criado o seu Colégio Eleitoral com o número de Eleitores correspondentes.  Tanto os Democratas como os Republicanos terão seus Eleitores prontos representando o seu estado.  Aí acontece a votação que os cidadãos comuns vão às urnas – essa que eu e o Marido votamos.  Os votos são contados.  Continue pensando em nível estadual.  Cada estado tem um político eleito pelo voto popular.  Para ilustrar, vamos imaginar que o Obama tenha ganhado na Virginia.  O Obama é do partido Democrata e como ele venceu as eleições dentro do estado da Virginia, os 13 Eleitores do partido Democrata do Colégio Eleitoral da Virginia entram em ação votando para presidência.  O estado da Virginia tem direito então a 13 votos democratas (teoricamente).  Os Eleitores dos Colégios Eleitorais dos outros partidos dentro da Virginia vão para casa.  E isso acontece dentro de cada estado de acordo com quem venceu a eleição no voto popular.  Os Eleitores de cada estado votam para presidência na segunda quarta-feira de dezembro e enviam os votos selados para o Congresso em Washington DC.  O resultado oficial só sai no dia 6 de janeiro, dois meses depois da eleição popular.  É aí que está a pegadinha: eu não voto diretamente para o candidato que eu escolher, se o meu candidato ganhar o meu voto terá sido na verdade para os Eleitores do Colégio Eleitoral do partido do meu candidato.  E quem garante que ele vai votar no mesmo candidato que eu votei?  Isso não deveria acontecer, mas acontece.  Em 2000, Al Gore ganhou no voto popular, mas não levou a eleição porque Bush tinha mais votos de Eleitores dos Colégios Eleitorais de todos os estados.  Atualmente existem 538 Eleitores nos Colégios Eleitorais de todo o país, ou seja, são 538 votos Eleitorais que realmente contam nas eleições presidenciais americanas.  Um candidato precisa ganhar um mínimo de 270 votos Eleitorais para vencer a eleição.  E dentro desse sistema de Colégio Eleitoral, o meu voto pode valer absolutamente nada dependendo de quem ganhar no meu estado. 

E por que diabos as eleições funcionam assim?  Porque está escrito no Artigo II Seção 1 da Constituição Americana.  Os seus criadores não acreditavam que um cidadão comum teria condições de escolher um candidato adequadamente e por isso deram um jeito de usar o sistema político na escolha do presidente.  Isso aconteceu lá em 1787 e para alterar o sistema eleitoral seria necessário alterar a Constituição.  Dá trabalho só de pensar. 

E obviamente que existe muita crítica, umas positivas defendendo que só assim existe uma votação justa e proporcional; outras reinvidincando o voto direto.  E o que você acha desse sistema?

Ex corde.

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Honor System é um sistema baseado na confiança, honra e honestidade.  Quando algo funciona nesse sistema, não existem regras rígidas obrigatórias estipuladas e nem uma fiscalização acirrada. Ninguém vai checar nada.  O Honor System oferece mais liberdade, pois parte do princípio que todas as pessoas são honradas até que se prove o contrário.  Assim, todos vão utilizar a sua integridade para observar as mínimas regras existentes e que ninguém vai abusar da confiança depositada nelas.

Honor System 2 _Ex corde

-  Livros à venda em um corredor pouco frequentado em uma biblioteca pública de San Antonio, TX.

Através da perspectiva brasileira, esse sistema parece muito utópico para não dizer imbecil (vide como brasileiros reagem àquelas perguntas no formulário do visto de turista sobre porte de arma, atividades criminosas, etc).  A diferença gritante está no entendimento existente na cabeça das pessoas engajadas no honor system – para elas existe uma conotação extremamente negativa ao quebrá-lo ou ir contra. Os pontos negativos estão todos relacionados com confiança, honra e honestidade. Quem quebra o sistema perde o senso de integridade e orgulho. Gera vergonha por sentir-se humilhado perante a sociedade.  E em algumas situações, a pessoa pode até ser banida do convívio comunitário, social ou acadêmico. 

Honor System Library Rules_Ex corde

-  Preços estipulados numa placa.

Um exemplo que acho fantástico é o fato de algumas universidades americanas só aceitarem matricular alunos que estejam dispostos a participar do honor system em vigor na instituição.  Existem códigos de honra onde o aluno se compromete a não colar, não dar cola, não receber ajuda, não plagiar, entre outros fraudes acadêmicos.  O comprometimento não se limita à sala de aula, mas para toda a comunidade e faz total sentido já que quem é íntegro assim será em qualquer circunstância.  Há comitês formados apenas por alunos apenas para julgar os casos e eles decidem se o indivíduo que quebrou o código pode continuar na universidade ou não.  Dá uma tristeza enorme em saber que, no Brasil, isso tá mais para idéia de minissérie de televisão do que a realidade.

Honor System 1_Ex corde

-  Caixa de madeira para receber o pagamento sem ninguém controlar ou fiscalizar nada.

O sistema de honra pode ser aplicado nas mais diversas maneiras.  Já fui em restaurantes onde o garrafão de vinho da casa era deixado na mesa e eu apenas precisava indicar quantas taças bebi para que fosse cobrado na minha conta (sem que eles verificassem o garrafão).  Os jornais impressos são vendidos em máquinas onde você coloca o dinheiro para destravar a porta.  Assim o comprador pega apenas um jornal mesmo tendo acesso à pilha inteira que está à venda.  Utilizamos o transporte público em Praga, República Tcheca, onde ninguém avisa onde estão localizadas as máquinas para comprar o bilhete e absolutamente ninguém fiscaliza os passageiros para ver se eles realmente compraram a passagem.  Ainda assim, vi todo mundo escanear o seu bilhete a bordo.  Eu frequentava um supermercado na área de DC que tinha um escaner manual e sem fio que me permitia escanear o produto e colocar nas sacolas durante as compras.  Ao terminar, era só escanear um código de barras, pagar e ir embora.  Fiscalização zero!  Ah, é claro, a venda de livros na biblioteca pública com as fotos que ilustram esse post.  Já vi esquema parecido em barracas de frutas e verduras na beira da estrada onde não há ninguém por perto, apenas os produtos com os valores e uma caixinha/cestinha para o dinheiro.  Se você tiver mais alguns exemplos desse sistema, compartilha nos comentários! 

Sinceramente não sei o que acontece com a integridade brasileira, pois sei que existem pessoas íntegras mas ainda assim é uma prática comum sacanear aquele que é honesto.  O íntegro vira otário porque ele não coloca as suas necessidades pessoais acima do que é melhor para uma vida em sociedade com qualidade.  Então os valores se invertem: não é vergonhoso desobedecer regras; a vergonha é ser um otário por observá-las.  Parece até que é contagioso.  É um salve-se quem puder.  Farinha pouca, meu pirão primeiro.  Dane-se o resto!  Entre essa e outras é que acho que esse sistema não funcionaria no Brasil.  Você sinceramente acha que funcionaria?

Ex corde.     

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