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Archive for the ‘Comportamento’ Category

A vida mudou bastante com a chegada dela.  A demanda é enorme e em tempo integral sempre acompanhada de muito choro. Consigo ganhar um pouco mais de foco no meu trabalho de mãe ao lembrar que o chorôrô é parte normal do desenvolvimento infantil e, que por enquanto, é a única maneira dela se comunicar com a gente.  Mas ainda assim o ouvido dói.  A cabeça dói mais ainda por causa do déficit de sono (e olha que ela dorme bem a noite).  Tem ainda o cansaço da amamentação em livre demanda e o resultado é uma pessoa zumbificada – uma morta viva com olheiras roxas perambulando pela casa dia e noite.  E já percebeu que zumbi é um bicho descabelado que anda sempre com a mesma roupa suja?  Pois é, porque tomar banho era (é?) artigo luxuoso de primeira categoria.  É só pra quem pode!  E trocar de roupa pra quê se em 5 minutos ela vai golfar leite azedo em mim?  Ou os peitões vão vazar loucamente?  Mas você só percebe que o negócio tá ruim quando a sua mãe te vê no Facetime e a primeira coisa que ela fala é pedir para você pentear o cabelo.  Com tanta falta de sono + muito choro no juízo, a única coisa que eu consigo pensar é em como vou sobreviver.  Perceba que já passei do estado de pensar se vou sobreviver.  Jogar na parede?  Colocar no forno?  Deixar se esgoelar sozinha até cansar?  Não cheguei a tanto, mas aprendi a não julgar nenhuma mãe que toma alguma medida drástica.  O negócio é seríssimo!  Não é a toa que deixar nego sem dormir é um método de tortura. 

Aí no meio do caos ela dá um sorriso, fica no swing por mais de 15 minutos sem chorar, senta na cadeirinha de boa, dorme por horas sem interrupções, me dá uma trégua.  Eu consigo fazer xixi.  Ou almoçar com garfo e faca sentada a mesa.  Ou pentear o cabelo (oi, mãe!).  Ou escrever um post para o blog.  É quando tudo aquilo que verdadeiramente importa volta a fazer sentido na minha cabeça.  Hoje mesmo gastei toda a bateria do meu celular tirando fotos dela porque ela está mudando muito rápido e eu não quero esquecer de nada.  Me dei conta que ela não é mais aquela bebezinha de pele enrugada que mal abre o olho.  Ela já sustenta o pescoço sozinha e interage com os olhões abertos.  Aquilo que eu tinha nos meus braços há algumas semanas, eu já não tenho mais.  E o meu coração apertou.  Queria ouvir todos os barulhinhos (gori gori) que ela faz mais uma vez porque “e se ela nunca mais der aquela respirada funda gostosa após mamar?”  Minha filhotinha só tem dois meses de vida e eu já estou com saudades de quando ela era “pequenininha”?  Ela dormia tranquilamente no meu colo hoje mais cedo e eu registrava com a câmera do celular aquilo que eu queria lembrar lá na frente.  Foi aí que um sentimento que eu nunca tinha sentido antes me consumiu loucamente: uma estranha saudade do agora.

Essa coisa de maternidade é uma loucura mesmo!  

Ex corde.

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O lado B do Recomeço

Ando ausente e meio anti-social.  Mais uma prova pela frente tem me feito colocar todo o resto da minha vida no final da fila de prioridades.  Me sinto ausente de mim mesma vendo os dias e as semanas voarem numa rapidez absurda.  É como se o meu corpo acordasse todos os dias para estudar e só parasse na hora de dormir.  E como se a minha mente saísse de mim e observasse essa rotina diária.  Dá um nervoso quando penso que o que está passando é a vida e que diabos eu estou fazendo com ela?  Isso tudo vale mesmo a pena?  Depois de muito queimar os miolos, descobri que estou atrás daquilo que eu acho ser a única coisa de mim mesma que restou após tantas mudanças na vida.  Não tenho problemas com recomeços.  Nunca tive.  Se algo não está bom, não tenho medo de arriscar.  Encaro o novo de braços abertos, mergulho de cabeça, me permito experimentar, tentar mais uma vez.  E o lado bom disso tudo sempre foi muito claro para mim – é excitante, traz curiosidades e uma vontade de aprender mais e mais sobre ele.  É quando eu me transformo numa tela branca pronta para ser pintada seja lá do que for.  É um mecanismo de sobrevivência brilhante!  Na minha história pessoal, essa capacidade me permitiu experimentar coisas – e pessoas, lugares, jeitos – que eu jamais desconfiei gostar.  É quando a mudança interior passa a acontecer.  Não sou a pessoa que eu era antes.  Com certeza eu não permaneceria eu mesma ainda que continuasse morando na mesma rua que nasci fazendo exatamente as mesmas coisas que sempre fiz.  Mas a pessoa que eu poderia ter me transformado certamente não seria a pessoa que eu sou hoje por causa dos desafios específicos que eu aceitei enfrentar.  Perdoe-me por afirmar o óbvio.  E já me vi em muitas situações onde eu teria que absorver o novo, ou teria que desistir.  E como desistir não faz parte de mim, eu não tinha escolha.  Só que quando absorver o novo passa a ser uma constante, muitas confusões podem acontecer dentro da cabeça.  Aconteceu na minha.  É aí que o lado B dos recomeços pesa e exige um certo foco para não se perder nessa trajetória.

Há quase uma década que eu venho abraçando o novo com muita vontade.  Fui contabilizar: foram seis mudanças em dez anos.  Novos lugares, novos amigos, novos ares.  Não apenas uma nova casa, mas também uma nova cidade, um novo estado e até um novo país.  E mais mudanças dentro do novo país.  Novas atividades, novos ritmos de vida.  Tudo novo e diferente daquilo que eu fazia & tinha.  Muito mais coisas novas sendo absorvidas até chegar no ponto em que eu me vi tendo dificuldades de me reconhecer.  A idéia que eu tinha de mim mesma ficou presa no passado e não correspondia com o meu “eu” real.  Quem sou eu mesmo?  Um monte de coisas novas que não necessariamente refletem a minha personalidade?  O que eu gosto de fazer mesmo?  Faço isso e aquilo porque é o que tem disponível onde estou agora ou porque realmente eu gosto de fazê-los?  O que me diverte?  Ou estou fazendo apenas para me sentir parte da nova realidade?  As perguntas são respondidas com mais perguntas apontando claramente a confusão de idéias que tomaram conta de mim.  E os pensamentos turbulentos se manifestaram através de sentimentos não muito confortáveis.  E tudo isso porque eu estava receptiva aos acontecimentos ao meu redor.  Mas essa consequência não é um lugar legal para estar.

Marshmellow Heart_Ex corde

Depois de uma longa & honesta conversa comigo mesma que se transformou num falatório sem fim no ouvido do meu paciente Marido, acabei conseguindo responder às minhas próprias perguntas.  A minha disciplina quase obsessiva com os estudos para tirar a licença profissional é uma busca importantíssima de uma parte de mim mesma que sempre foi minha.  Percebi que preciso ter algo que sempre foi meu.  Algo que esteve presente em quem eu fui e que esteja presente em quem eu sou.  E no meu caso onde não existe nada mais, a minha profissão preenche essa lacuna.  Não, ela não me define, mas ela me traz um senso de pertencer a alguma coisa que equilibra todo o resto.  Afinal, tudo o que me cerca hoje é estrangeiro, é diferente, é de outra cultura, é de outra língua.  É algo que por mais que eu tente & queira, não vai conseguir voltar ao passado e fazer parte de mim como o todo.  Aquilo que foi integrado a mim a cada mudança faz parte do meu novo eu.  Faz sentido?  Talvez daqui há muitos anos isso faça parte do meu eu num contexto mais integral, caso eu não continue mudando, não sei dizer.  Mas por enquanto ainda existe uma sensação de não pertencimento e por isso a relevância de ter um referencial só meu.  Tive um A-HÁ moment onde as peças se encaixaram, tudo fez mais sentido e eu descobri o que falta para não perder completamente o meu senso de identidade pessoal após abraçar tantas mudanças.  E o melhor, sem odiar a idéia de ter que recomeçar mais uma vez se assim a vida se desenrolar frente aos meus olhos. 

Xiiii, trouxe o meu falatório até aqui… foi mal, e obrigada pelo “ouvido”.

Ex corde.

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O Dia dos Finados na cultura mexicana tem um perspectiva bem diferente da brasileira e morando tão pertinho do México fica quase impossível não aprender sobre as tradições mexicanas.  Acredita-se que os entes queridos que morreram vêm visitar amigos & familiares no dia 31 de outubro retornando para o além (!?) no dia 2 de novembro.  E por isso San Antonio vem celebrando El Dia dos los Muertos há alguns dias – aliás, hoje teve uma grande parade que aconteceu na tarde de sábado em downtown com muita música & comida.

El Dia de los Muertos_Ex corde

O colorido é o que mais chama a atenção nesta data!  Quanto mais cor, mais alegre e portanto, melhor!  Afinal de contas estão todos celebrando a vida.  A idéia parece controversa, mas os povos indígenas mexicanos festejam a data desde 1800 a.C. e o que existe hoje é uma mistura das crenças indígenas com os rituais religiosos (católicos).  Ao contrário do que muita gente pensa, El Dia de los Muertos não é a versão mexicana do Halloween.  É na verdade uma data integralmente religiosa para muitos.  Não é considerada um sacrilégio, não envolte cultos, não é vista como uma prática macabra e nem mórbida.  Não existe a utilização da imagem de fantasmas ou bruxas.  Os esqueletos e caveiras estão sempre presentes por simbolizar a promessa da ressurreição – jamais representando a morte em si.  A festividade do El Dia de los Muertos não é algo triste porque é entendida como um momento de reunir amigos & familiares para prestar homenagens para aqueles entes queridos que morreram.  Sempre com muita comida.  Não é a celebração da morte.  Não é sobre o medo, é sobre o amor.  É a oportunidade para relembrar as pessoas queridas que se foram e para refletir sobre a própria vida, a herança deixada pelos antepassados e sobre o significado e propósito da própria existência.

El Dia de los Muertos at San Fernando Cathedral_Ex corde

A influência mexicana é tão forte que os altares do El Dia dos los Muertos podem ser vistos em vários lugares, inclusive em praça pública na frente da catedral de San Antonio (foto acima).  As homenagens são pessoais e cada um é encorajado a fazer o seu próprio altar como uma maneira de elaborar melhor o luto.  Apesar da liberdade de criar o que quiser, existe uma série de simbolismos associados com o altar.  Veja alguns deles alguns abaixo.

Fotos: a pessoa falecida homenageada precisa ter a sua foto presente e isso é considerado a parte mais importante do altar.

Três cores importantes: roxo representando a dor, branco representando a esperança e o rosa respresentando a celebração.  Velas nessas cores são geralmente colocadas no altar.

Papel Picado: são papéis coloridos perforados com desenhos satirizando expressões das atividades cotidianas usados para decorar o altar.

Quatro velas: que são colocadas no topo do altar representando os quatro pontos cardinais da bússola.  Acredita-se que a vela ilumina o caminho dos mortos durante a visita deles.

Caveiras: três devem ser colocadas no segundo andar do altar representando a Santíssima Trindade.  Uma quarta caveira e de tamanho maior deve ser colocada bem ao centro do terceiro nível representando o Criador da Vida.

Copal (incenso de resina): são queimados para afastar os maus espíritos deixando o caminho livre para os espíritos das pessoas amadas se reencontrarem.

Pan de Muerto: é um pão levemente adocicado em formato de ossos humanos.

Alfeñiques: são caveiras feitas de açúcar decoradas de várias formas e cores.  Os nomes dos entes queridos são colocados na testa e as caveirinhas são distribuídas para as crianças.

Marigold: é o tipo de flor tradicional para decorar o altar.  Os locais usam as pétalas para fazer um caminho para guiar os espíritos até o banquete (comida).

Os altares ainda tem representação dos pertences pessoais das pessoas falecidas, como chapéus, roupas, além das bebidas e comidas favoritas delas.

El dia de los Muertos _Ex corde

Vários altares enfeitavam as galerias do El Mercado neste fim de semana mostrando como a cultura mexicana alcança até as escolas primárias.

El Dia de los Muertos_ Ex corde

Acima estão os mini-altares preparados em caixas de sapato pelas crianças numa manifestação bem interessante da tradição popular.  E abaixo algumas das histórias pessoais de cada ente querido.

El Dia de los Muertos em San Antonio_Ex corde

E Downtown San Antonio festejou a noite do 2 de novembro com muita alegria conforme as tradições mexicanas.

Celebracao El dia de los Muertos_ Ex corde

Celebracao El Dia de los muertos_ex corde

Ex corde.

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… segundo Plutão.  É que uma vez eu fiz um mapa astral e, de tudo que a moça me falou, não esqueci jamais de algo relacionado com Plutão representando a minha incrível capacidade de caminhar pelas sombras e ressurgir das cinzas.  Muito prazer, meu nome é Fênix!  Pô, ao invés daquilo me fazer acreditar que aquela avalanche que me engolia viva ia passar, eu passei a ter raiva.  Por que não fui passear em outro planeta com outra característica menos desafiadora?  Sério.

Aí nessa semana atribulada, foi inevitável não pensar em como parece que estou sendo constantemente testada.  A restrospectiva mental de uma vida mostrou merda desafio demais para uma curta existência!  Tem horas que eu me orgulho de ter sobrevivido com dignidade até aqui.  Tem outras horas que eu me pergunto quê diabos mais me falta acontecer, mas aí tapo os ouvidos porque sinceramente tenho medo da resposta.  Tenho meus surtos.  Minhas dúvidas filosóficas.  Minhas inseguranças.  Dou uma caída e sempre volto com força.  Seriam as forças de Plutão?

Foi então que hoje sentei para tentar terminar um post sobre um lugar legal que fui no domingo aqui em San Antonio.  O post está no rascunho desde domingo, e veja bem, amanhã é sexta.  A semana está quase acabando e obviamente não foi dessa vez que eu concluí o texto sobre o passeio.  E por quê?  Porque dessa vez a minha mente me carregou para a minha infância repleta de memórias meio borradas.  Aí sabe quando um pensamento puxa outro da maneira mais desconexa possível?  Eu lembrei que sempre quis ser daminha de honra e nunca era escolhida enquanto outras crianças já eram profissionais na arte de carregar as alianças.  Até que um dia eu fui convidada, quanta emoção!  Estava lembrando da igreja, do vestido bufante que usei e, claro, lembrei da noiva.  Click.  Me dei conta de que fui dama de honra num casamento católico que acabou em divórcio e depois de alguns anos a então-noiva descobriu ser portadora do vírus HIV.  Que sinal sombrio da minha cuzice, hein Plutão!  Se for para significar alguma coisa, me manda logo as coordenadas de superação porque eu tô ficando cansada dessa característica extraordinária.  E atenção: acabei de perceber que estou fazendo referências ao planeta mais significativo no meu mapa astral na atual conjuntura intergaláctica em que o próprio nem planeta é mais.  Sentiu o meu drama? 

E antes que alguém pergunte, sim, estou de TPM.

Ex corde. 

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Perdoem-me por já começar afirmando o óbvio, mas aprendi só depois de adulta que a qualidade de uma relação interpessoal está diretamente relacionada ao tempo que você dedica a ela.  Sempre tive uma percepção inconsciente de que o outro teria que se doar o bastante para valer o meu esforço de me doar em troca.  Obviamente que era uma idéia de jerico e mais cedo ou mais tarde o resultado era o fim daquela relação.  Pena que demorei para compreender a questão de doar o meu tempo nas relações humanas para estabelecer laços verdadeiros e duradouros.  Sorte a minha que o ser humano tem a capacidade de evoluir e melhorar como pessoa.  Então aos poucos fui percebendo que não queria passar batido nessa vida super preocupada com as minhas metas pessoais & profissionais.  Descobri que fazer uma diferença minúscula que seja na vida de alguém me traz uma satisfação pessoal enorme.  Não tenho como dizer isso sem soar cafona ou cair em frases feitas, mas fui sinceramente percebendo a verdadeira alegria de dar sem esperar nada em troca.  Isso sem contar com os momentos únicos vividos e as memórias deliciosas construídas que enriquecem uma vida.  Todo esse blá-blá-blá é parte de uma reflexão pessoal que venho fazendo há algum tempo.  Não sei dizer como, mas fui aprendendo a parar de me cobrar possibilitando dar um PAUSE em certos projetos para intercalar com coisas que realmente importam.  E o mais difícil: ficar muitíssimo bem comigo & com as minhas decisões.

Nesse contexto, digo que suspendi todo o resto nessas últimas semanas para dedicar o meu tempo para a minha tia.  Depois de uma longa luta contra um câncer, o seu marido descansou em outubro passado.  Aquele Tiozão queridíssimo por todos deixa uma saudade que me faz engasgar ao escrever aqui.  Ele fez questão de se fazer presente durante uma perda doída que sofri.  Ele fez uma diferença naquele momento com seus pequenos gestos de carinho.  Ele também marcou a vida de muitas outras pessoas conhecidas e desconhecidas com o seu ombro amigo e seus inúmeros projetos de caridade.  É muito inspirador vê-lo fazendo a diferença na vida de pessoas mesmo após a sua partida.  Entre essas & outras, é por isso que a saudade machuca tanto.  E se dói em mim, imagine como não deve doer na minha tia.  Construíram uma vida juntos e agora ela precisa aprender a continuar a viver sem ele.  Tarefa nada fácil.  E na ocasião da morte dele eu sabia que o aniversário de 60 anos dela estava chegando em alguns meses.  O meu pensamento não parou de buscar idéias de como oferecer uma alternativa diferente que a tirasse da sua rotina e trouxesse uma brisa de ar fresco nessa data significativa.  Além das seis décadas de vida, eles estariam comemorando 38 anos de casados naquele mesmo dia.  E foi também quando completou sete meses de sua partida.  Ela tinha motivos mais do que suficiente para se afundar na tristeza, mas eu encasquetei com a idéia de fazer uma diferença positiva de alguma maneira.  Com o apoio fundamental do meu querido marido, oferecemos a nossa casa e o nosso tempo para organizar uma festa de aniversário em homenagem a ela.  O mais delicioso disso tudo foi que minha tia embarcou nessa idéia louca.  Ela teve a oportunidade de viajar com seus filhos & netos, conhecer um lugar novo e comemorar mais um ano de vida de uma maneira muito diferente.  Rolaram lágrimas durante a festa.  Eram muitas lágrimas de saudades não só dela como de todos presentes, mas estava claro que a noite do dia quatro de maio foi essencialmente feliz!  Essa iniciativa não teria sido tão bem sucedida sem a ajuda de cada um envolvido de perto ou de longe.  Os olhos da aniversariante brilhando foram marcantes e definitivamente me mostraram o valor de doar o meu tempo para fazer uma mínima diferença na vida de quem a gente ama. 

Aos poucos volto com a minha rotina e vou retomando os meus projetos com o coração explodindo de alegria por ter tido essa oportunidade.  O registro público dessa iniciativa é apenas para não ser traída pela memória no futuro e acabar esquecendo de como a reação da minha tia me fez enxergar o que verdadeiramente importa nessa vida.  

E deu vontade de saber como você vem usando o seu tempo ultimamente.  Conta aí nos comentários, conta.

Ex corde.

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Ótima Companhia

Ontem o dia começou com uma manhã cheia de afazeres domésticos e pendências para resolver que foi seguido por uma tarde produtiva de estudos.  Na volta para casa, ainda curti um restinho de dia com a horinha a mais que ganhamos por aqui com o Daylight Saving Time.  Parei no meu novo cabelereiro (finalmente criei coragem e cortei as pontas!) para trocar um produto que tinha comprado.  Sem pressa, entrei na Target de perto de casa para comprar leite.  Acabei várias porcarias na mão: biscoito wafer de chocolate, sorvete de chocolate, chocolate recheado com biscoito e drops de chocolate.  Sinal de TMP.  Pensei em caminhar pela parte de roupas e mudei de idéia.  Fui na direção da parte de coisas para casa, mas acabei indo para o caixa pagar.  Comecei a mastigar meus chocolatinhos ainda no carro.  Mal cheguei em casa e me joguei no sofá para continuar comendo o meu jantar nada saudável.  Bateu um cansaço misturado com preguiça.  A cabeça foi desacelerando enquanto um capítulo de Law & Order: Special Victims Unit começava atrás do outro.  Pé para cima.  Hugo ronronava no braço do sofá que fica na altura do meu ouvido.  Liguei o computador e fui navegar sem rumo pela internet para ler notícias brasileiras.  Li muita futilidade também.  A hora foi passando e o sono foi chegando.  Escovei os dentes morrendo de preguiça – como sempre.  E fui deitar na cama com a Filó como nos velhos tempos.  Um lado é meu.  O outro é dela.  Ela me traz uma alegria tão grande no coração.  Fui ler com a luz do abajur acesa sem me preocupar em incomodá-la.  Marido está viajando a trabalho – de novo.  Tenho ficado bastante tempo sozinha e estou achando incrivelmente educativo.  Tenho aproveitado meus muitos momentos de silêncio, compreendido que não adianta lutar contra os afazeres que não podem mais serem divididos por causa da constante ausência dele, saboreado a minha tranquilidade de ficar quieta comigo mesma e a chance de desligar da tomada, pois sou só euzinha.  Curiosamente morro de saudades dele me mimando com o seu jeito todo único de ser prestrativo, cuidadoso e preocupado ao extremo comigo.  Mas também tô me curtindo.  Tenho lembranças de quando morei sozinha.  Eu gostava.  Quando as viagens começaram a aparecer no novo trabalho do Marido, eu não achei que fosse ver um lado positivo.  Mas graças a elas eu estou percebendo o quanto eu estou tendo a chance de revisitar maneiras de me virar só, de me completar, de me fazer sorrir e de me sentir feliz.  Sim, já estava quase esquecendo de que sou uma ótima companhia para mim mesma.

Ex corde.

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O Dia da Mulher quase não é lembrado por aqui.  Não há anúncios de lojas, não há vendedores de rosas nos sinais, não há cartões e nem nada parecido aproveitando a ocasião e nunca ouvi ninguém me parabenizando pelo meu dia.  E eu acho muito bom não ter mais que lidar com a hipocrisia alheia no dia 8 de março de cada ano. 

Não me entenda mal: acho a celebração das conquistas femininas no âmbito social, econômico e político muito interessante.  Acho digno existir uma consciência que exalta o respeito pela luta das mulheres de exigir igualdade entre os sexos, poder votar e poder exercer cargos públicos.  Bato palmas para aquelas que queimaram sutiãs em praças públicas para protestar, pois se não fosse a reindivicação de muitas talvez a minha realidade ainda fosse o destino incontestável de dona de casa, mãe de uma penca de filhos que passa o dia com o umbigo o fogão – não por escolha, mas por não existir outra opção.

Só que rola um pseudo respeito que, além de ser tão exarcebado na cultura brasileira no dia 8 de março, ainda reflete comportamentos extremamente incoerentes.  Enquanto mulheres forem violentadas e ainda existir pessoas atribuindo parcela de responsabilidade para uma saia ou um decote dizendo que elas pediram para ser estupradas, eu me sinto enojada com um “Feliz Dia das Mulheres”.  Feliz?  Tem certeza?  Acho uma tristeza ter que sempre pensar duas vezes que tipo de roupa colocar para ter certeza de que não vou correr o risco de ser atacada por algum tarado pelo simples fato de eu ser mulher.  Não estou pirando não.  Quando tinha uns 13 anos, eu falava no orelhão (daqueles que tem vários telefones em um mesmo poste) na frente da padaria numa esquina movimentada na Moreira César em Niterói quando um homem que usava o orelhão na frente do meu, colocou o pinto duro para fora.  Eu só vi porque baixei a cabeça enquanto falava.  Fiquei nervosa, comecei a tremer sem entender direito a situação.  Fiquei na dúvida se aquilo era para mim mesmo, mas como eu era a única pessoa a usar o orelhão (além do tarado) decidi não pagar para ver e cortei a conversa imediatamente.  Não gritei e não chamei atenção, apenas corri para dentro do prédio do outro lado da rua.  Não sei o que mais poderia ter acontecido se eu continuasse batendo papo naquele telefone público naquela tarde.  Algumas outras mulheres vivem situações com um desfecho um tanto mais complexo do que o que eu vivi, mas a sensação de impotência e desrespeito é lugar comum em qualquer ato de violência, seja ela física, moral, psicológica e/ou emocional.  Tenho medo até hoje.  E a parte pior disso é que quase toda mulher tem uma história de horror para contar que tenta enterrar no fundo da memória por se sentir humilhada, envergonhada e fragilizada. 

Quem disse que mulher gosta de receber cantada no meio da rua?  Quem distribui por aí autorização para estranhos falarem/olharem com conotação sexual sobre alguma parte do seu corpo?  A menina ainda criança cresce sendo ensinada a ignorar para evitar o pior.  O que estamos ensinando para as meninas?  A internalizar a violência como algo normal?  É, isso mesmo já que o medo fala mais alto.  Não é novidade que a reação de uma mulher pode transformá-la, ou em alvo de chacota ou a agressão verbal alcança um nível maior.  Sem falar nas chances de violência física e até morte.  E as passadas de mão que uma mulher que usa transporte público tem que aturar? Se isso não é violência, eu não sei bem o que é então.  Isso é realidade diária de muita mulher (eu incluída aí até mudar para cá).  Tem noção, seu moço?   

Tem ainda os mil lugares comuns que são TÃO comuns que muita gente nem percebe mais como desrespeito.  Uma amiga me contou que tinha que ouvir comentários incômodos do ex-namorado quando ela não fazia a unha toda semana.  Ter que lidar com isso?  E o respeito pela vontade de não fazer a unha onde fica?  Uma outra amiga me confessou uma vez que o namorado não permite que ela beba nada alcóolico, porque isso não é um comportamento de uma “moça de família”.  E o respeito pelas escolhas dela?  Não vou nem aprofundar nas pessoas que vêem mulheres sexualmente ativas como promíscuas.  Que ano é hoje, gente?  Ser simpática é dar mole.  E se levarmos a questão para o lado racial, tenho certeza que o desrespeito pela moreninha de cabelo crespo aumenta exponencialmente.  Se esses “pequenos” desrespeitos não são vistos como tal, a violência tende a crescer.  Tem mulheres morrendo diariamente como resultado dessa violência das maneiras mais estúpidas possíveis, como rejeitar um pretendente ou terminar um namoro.  As agressões fatais muitas vezes não tem explicações, seja a morte por espancamento ou por um tiro de revólver.  É assustador. 

O desrespeito pelo corpo da mulher é claro onde quer que vá no Brasil.  As propagandas de cerveja não se cansam de propagar o uso sexual do corpo feminimo e as outras inúmeras propagandas de altíssima conotação sexual desnecessária que passam livremente na televisão?  Não sou moralista, mas fiquei chocada na última vez que fui no Brasil.  A mensagem passada é de que o corpo da mulher muitas vezes nem é mais propriedade dela.  A violência tá dentro de casa – oito mulheres são assassinadas todos os dias vítimas da violência doméstica no Brasil.  Tá achando exagero, então clica aqui.  É desrespeito por cima de desrespeito que paira no ar.  E como o ar que a gente respira é tão normal na nossa vida, a gente nem sente mais a presença dele.  A não ser que ele nos falte.  Saca?  Daí depois muita gente se choca com notícias de crimes bárbaros.  Estuprar mulheres como presente de aniversário?  Aqueles homens cresceram vendo o desrespeito contra a mulher nas mais diversas manifestações.  Esperar o quê?  Consciência e respeito? Políticos e pessoas influentes fazendo parte de estupro coletivo?  E não venha me dizer que quem “somente” acha a mulher culpada por provocar o homem está numa situação diferente daquele que pratica o ato em si – o desrespeito violenta a mulher igualmente e pode deixar sequelas profundas por uma vida inteira. 

Os Estados Unidos é um país que está muitíssimo longe de um modelo de sociedade perfeita, igualitária onde todos são respeitados.  Mas a grande diferença é que eu não preciso fazer cara de agradecida ao ouvir os parabéns pelo meu dia (hoje) vindo da boca de muitos que são os primeiros a desrespeitar as mulheres – direta ou indiretamente. 

Ex corde.

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