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O bom e velho efeito placebo

Aqui nos EUA há pelo menos uns três tipos de heras bastante conhecidas por liberarem um óleo (urushiol) responsável por reações alérgicas ao entrar em contato com a pele.  O poison ivy é bem conhecido na costa leste americana enquanto poison oak e poison sumac são mais comuns na costa oeste.  Fui aos poucos me familiarizando com a existência dessas plantinhas e aprendendo a tomar cuidado, mas só compreendi verdadeiramente do que se trata quando trabalhava na farmácia.  O início da primavera é marcado pela enorme quantidade de pessoas correndo farmácia a dentro com braços e/ou pernas empelotadas, edemaciadas, inflamadas, com uma coceira e vermelhidão de dar dó.  [Só não perde para a multidão alérgica ao pólen que literalmente esgota Alaway e Zaditor das prateleiras.  A sazonalidade é mesmo extremamente previsível, não acha?]  Claro que não precisou muito para que eu tivesse a recomendação na ponta da língua – caladryl e compressa de água fria ou aquele produtinho ali com solução de alumínio.  Se o negócio tivesse infeccionado ou com sangue, corre para o hospital porque a reação alérgica é das brabas e um esteróide sistêmico que só é comprado com prescrição médica provavelmente vai ser necessário.

Tô contando isso tudo para contextualizar uma história que lembrei enquanto revisava o capítulo de formulações dermatológicas.  Aconteceu na primavera exatamente como descrito acima.  Uma senhora esbaforida adentrou a farmácia chorando e foi contando que estava cuidando do jardim de casa quando sentiu aquela coceira, vermelhidão e desconforto.  Ela achava que tinha tocado em algum pé de poison ivy e estava desenvolvendo uma reação alérgica.  Já tinha visto umas vinte pessoas só naquela semana com a mesma reclamação.  Depois de uma olhadinha rápida para conferir se não era preciso encaminhá-la para um hospital, pedi que ela me acompanhasse até o corredor de remedinhos vendidos sem receita, over the counter (ou ainda, OTC).  Para quem nunca teve a chance de entrar numa farmácia americana eu digo que a infinidade de formulações genéricas e de marcas de um mesmo produto é exaustiva só de olhar.  Mesmos os americanos se perdem com as muitas opções disponíveis e eu aprendi na prática que era mil vezes mais rápido largar tudo o que eu estava fazendo, passar pela portinha da farmácia, caminhar pelos corredores e me dirigir até a prateleira onde a recomendação se localiza.  Não adianta muito dizer corredor 3A, do lado direito, terceira prateleira de baixo para cima, um vidro rosa do lado das pomadas.  Contei nos dedos as raras vezes que isso funcionou.  Assim então levei aquela senhora até os vidros de Caladryl.  A pele dela estava visivelmente ficando mais vermelha e por isso o desespero dela aumentava.  Imagino a coceira dos infernos, mas acho que o choro dela estava escalonando mais rapidamente do que a a própria dermatite.  Aí o seguinte diálogo se desenrolou:

-  Tá aqui, senhora.

-  Caladryl?  Mas você não tá vendo que essa alergia está muito ruim? 

-  Sim. 

-  Não tem um remédio mais forte?

-  Este produto é a melhor recomendação OTC.  A senhora precisa ir para casa, lavar a área com água e sabão para remover qualquer resíduo da planta, aplicar o produto e se acalmar.

-  Já lavei várias vezes e não melhora.

-  Com o produto agindo na pele, a senhora vai se sentir melhor.

-  Mas você não tá entendendo a dor que estou sentindo.

-  Senhora, o Caladryl possui um analgésico justamente para tratar a dor.

– Eu preciso de um remédio mais forte!

Ela ignorou o que eu tinha acabado de dizer e seguiu desesperadamente para a prateleira do lado.  Olhou, olhou, olhou.  Pegou um vidro de uma formulação tópica em gel de um antihistamínico conhecido e me perguntou se aquilo ia fazer mal.  Bom, eu comecei dizendo que mal não ia fazer, mas que… Não consegui terminar a frase antes dela espremer metade do vidro nos seus braços e pernas ali no meio do corredor mesmo.

– AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Parou de coçar!  Eu precisava mesmo de um remédio mais forte!  Estou me sentindo muito melhor agora!

Ela seguiu para pagar o produto no caixa mais calma e sem chorar.  E eu voltei para dentro da farmácia pensando como o velho e bom efeito placebo faz milagres!  Sim, porque o produto escolhido por ela ainda não conseguiu ter a sua eficácia comprovada para formulações tópicas.  

Ex corde. 

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